Entrevista

Byte-papo: Livros Fast-Food

Registro sobre livros digitais, edição virtual, produção em escala e a tentativa de Ryoki Inoue de explorar novas formas de circulação editorial.

Arquivo histórico preservado Texto convertido a partir da base antiga em .htm para leitura contemporânea, com atribuição preservada, URL canônica e redirecionamento permanente da página legada.

Ryoki Inoue Byte-papo: Livros Fast-Food Com 53 anos, Ryoki Inoue está no livro do Guiness como o homem que mais publicou livros no mundo. São mais de 1050 títulos. Seu novo livro, “A Carta Amassada” não será impresso, mas estará disponível no site da HOTBOOK para download gratuitamente. Cansado de lidar com as editoras brasileiras, Inoue também está a frente da editora Vertente, que tornou-se virtual em 1996 com a ajuda de seu filho, abrindo espaço para novos autores através da Web. Uau! Mais de 1000 livros! Há quanto tempo você escreve para chegar a este número? A coisa começou a pegar fogo mesmo em 88 mas eu escrevo desde 86. Troquei a medicina pela literatura. Eu sempre fui do princípio que saúde não pode ser paga pelo doente, e sim pela sociedade, assim como a cultura. Daí então a idéia de lançar livros pela internet, pagos por patrocinadores, mas gratuito para o usuário final. Como é este projeto de lançar gratuitamente seu novo livro “A Carta Amassada” apenas pela Internet? A minha idéia é voltar a fazer com o livro digital o que eu consegui fazer com os livros de bolso: viciar o leitor. De tempos em tempos, ele procurará um livro novo e a única pessoa capaz de produzir neste ritmo sou eu. O brasileiro não entra na livraria para comprar livros. Na Internet não temos este problema. No momento que o internauta sabe que o livro é gratuito porque é patrocinado, ele faz o download do meu livro pela Hotbook. Mais pessoas acessam a Internet do que entram em livrarias. Mas como que fica o autor do livro? Como que ele vai receber pela sua obra? A idéia também é boa para o autor. As editoras brasileiras não investem em escritores novos. Digamos que um autor novo, que tem uma boa obra nas mãos, gaste 10 mil reais para vender mil livros. Ele tem que vender muito para este investimento render. Na Internet, isso não acontece. No caso da Vertente, o gasto de publicar um livro é de 15% do que ele gastaria em uma editora convencional. Você pretende lançar outros livros ou relançar algum de seus títulos neste formato? Tenho outros títulos na demanda. O próximo livro que deverá sair pela Vertente é o “Sequestro Fast Food”. Um jornalista de Wall Street veio para saber se eu escrevia um livro em 6 horas. Utilizei o repórter como protagonista e notícias que passaram no Jornal Nacional durante o dia. Em 6 horas o livro estava pronto com 160 páginas. Ele deve entrar em Junho. Você escreve praticamente todos os estilos de história, de romances esotéricos a bangue-bangue. A Internet pode ser um tema para um livro (talvez um conto cyberpunk...) ? Pode ser, mas eu acho que tem gente mais especializada para isso. Tem um escritor chamado Álvaro Mello, que mora nos EUA, que me mandou um “original” de um romance que gira em torno de um bate papo virtual. Provavelmente, vamos publicá-lo. Com a chegada da Internet, muitas pessoas descobriram sua “veia literária” e lançaram-se a escrever contos que são colocados pela Web. Graças a isso, será que ficou mais fácil chegar a uma marca de 1000 livros publicados, facilidade esta que você não teve? Não tem a menor sombra de dúvida. Precisa ter criatividade para não ficar repetitivo, aí então é questão de se empenhar. Ainda não é essa facilidade toda, mas com certeza é muito mais fácil do que antigamente, com as editoras convencionais. Depende mesmo é da mente humana. Estamos produzindo um boletim da Vertente com um questionário para saber mais sobre o gosto do internauta, sobre o que eles querem ler. Com os livros, não é o leitor que pede, é o autor que impõe o tema. Com esta idéia, a coisa se inverte. No caso da editora Vertente, o escritor receberá um zipdisk com o “original” contido nele, prontinho para ser editado para o papel quando quiser. Sociólogos e escritores especializados no tema “cyberpunk” jamais imaginaram algo como a Internet, muito menos que algo como ela surgiria no século. Você já imaginava algo assim em alguma de suas histórias? Eu escrevi alguns livros de ficção científica onde eu falava muita coisa que está acontecendo hoje, mas a Internet nunca me passou pela cabeça. Eu tive contato com ela a 4 anos atrás, quando a Vertente começou a depender da Rede.