As últimas eleições para a Academia Brasileira de Letras têm aprovado nomes em todas as áreas; menos na Literatura. Cantores, atrizes, economistas, ex-presidentes... A justificativa é tornar a Casa de Machado de Assis mais plural. O problema é que uma Academia que era para ser de Letras, acaba se tornando uma Academia de Tudo... de Poder, de Vaidade, de Influência... menos de Letras.
Digo isso porque não faltam são nomes legítimos para integrar tão nobre instituição. Um deles seria, sem dúvidas quem carrega o perfil próximo do escritor sino-brasileiro José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue. Não que ele deva assumir uma cadeira na Instituição. Nem sequer sei a sua opinião sobre isso. Mas pelo menos um nome como esse, marcado pela dedicação incondicional à arte de escrever, deveria, no mínimo, ser reconhecido pelo Estado e pela elite intelectual desse país como um Patrimônio Nacional.
Esse apagamento, presumo que deve ter acontecido por uma questão bastante contraditória. Pelo fato de amar tanto a literatura – a ponto de não ter espaço (ou não dar importância) para militar em prol do próprio reconhecimento – esse fator pode ter contribuído para seu apagamento.
Reconhecimento, obra e apagamento
Todos sabemos, que para eleger-se para uma instituição como a ABL, o proponente tem de agir como um verdadeiro candidato em véspera de eleição. Buscar mundos e fundos para alcançar o maior números de votos entre seus pares e poderosos que podem dar uma ajudinha extra na sua eleição.
Mas o critério principal para ingresso de um acadêmico não seria o conjunto de sua obra e sua contribuição para história literária e letras pátrias de seu país? Decerto que sim! Esse deveria ser o principal requisito para que um postulante alcançasse uma cadeira perpétua na conspícua Academia máxima do país com apresentação de todo seu portfólio literário, sobretudo, concernente a sua qualidade estética. E nesse quesito posso afirmar com toda convicção Inoue, ou qualquer outro(a) escritor(a) na sua condição, preencheria todas as recomendações possíveis.
Um escritor multifacetado e radicalmente literário
Inoue foi multifacetado no gênero da prosa... Biografia, reportagem, e sobretudo, ficção. Não tenho notícia que tenha se aventurado nos versos. Uma característica que me chama atenção e que é peculiar na sua condição é sua conexão com os escritores clássicos. Escreveu, provavelmente, em papéis, cadernos, depois na máquina de escrever, utilizou-se de pseudônimos (cerca de 39). Digo isso porque o que não faltam são escritores modernos desejosos a todo custo por holofotes cedendo alguns, nessa ânsia, até para a escrita com I.A.
A literatura possui essa particularidade. A capacidade de encantar a ponto de fazer pessoas colocar todas as outras obrigações sociais em segundo plano. Para dedicar-se exclusivamente como escritor Inoue sabia que sofreria perdas (sobretudo materiais) em decorrência da escolha. Mas isso nunca fora motivo para que ele cogitasse em retroceder; o que não deixa de ser uma atitude louvável em sociedade radicalmente capitalista.
Da pulp fiction aos romances e à formação de leitores
Na sua lista de produção ficcional livros de faroestes, Pulp Fiction, que confesso sei muito pouco sobre aproveitando a onda da disseminação dos pockets no mercado nacional naquele tempo. Depois, começou a enveredar em projetos maiores como romances dentre os quais cito alguns: Quinze Dias em Setembro, O Fruto do Ventre, O Nome Não Importa, Também se Lava com Água Benta.
Inoue foi, também, editor. Não seria exagero nenhuma compará-lo a uma “editora” ou a uma “academia” haja vista que sua dedicação e livros publicados muita das vezes é até mais produtivo que alguma instituição dessa. Não viveu de forma egocêntrica e ajudou quem pôde, inclusive oferecendo cursos de escrita criativa publicando dois livros nesse sentido, verdadeiros tesouros até para a Teoria Literária brasileira: Vencendo o Desafio de Escrever um Romance e O Caminho das Pedras.
Imprensa, recorde e valor histórico
Para dizer que não fora totalmente escanteado da vida cultural brasileira chegou a ser editado por grandes editoras como as Editoras Globo e Record. Parte da imprensa também buscou fazer justiça para com o seu legado Veja, Playboy, Folha de S. Paulo, e até o Wall Street Journal fizeram reportagens destacando sua obra e seu peculiar modo de escrever. Ora, mas isso deveria ser algo extraordinário a ponto de ganhar destaque em notas na imprensa, qual seja: um escritor que escreve? A que ponto chegamos! Nasceu mais uma “espécie em extinção” nesse Brasil da incoerência – escritor que escreve.
A Revista Piauí também deixou sua contribuição classificando sua reportagem referente à produção do nosso escritor como “Literatura fordista”; já a Revista Continente se referiu a ele como o “As histórias do Sherazade brasileiro” e o Indymedia do Reino Único não hesitou em apelidá-lo de “The Pelé of Literature”, epíteto compartilhado por outro grande jornalista brasileiro Alexandre Garcia.
Ryoki ultrapassou a marca de mais de 1.000 livros escritos o que lhe rendeu, talvez, seu maior título até agora – o de pertencer ao Guinness Book of Record. Quando perguntado porque não é mais reconhecido em seu país, acabou revelando uma realidade nada promissora de que o Brasil: “ainda não desenvolveu a capacidade de me absorver”, disse ao jornalista americano Matt Moffett.
Eis aí uma figura que muito admiro, digna e que preenche todos os requisitos para ser ao menos reconhecido na Academia de Machado de Assis (caso seja do seu feitio) ou, quem sabe, um Prêmio Nobel daquele que só é comparável a escritores como Balzac, Agatha Christie e Unamuno...
... carecendo ainda, estudos em âmbito das universidades, traduções, adaptações para o teatro e filmes dentre outras coisas. Quem sabe veremos isso acontecendo no futuro.
São Luís/MA, 12 de junho de 2026