À primeira vista, A Garota de Seul parece ocupar o território da fama global, do K-pop feminino e dos bastidores de uma indústria baseada em disciplina, desempenho e exposição. A entrevista de Cacá Fernandes, porém, desloca o centro da leitura. O romance nasce menos do desejo de explicar um fenômeno musical e mais da tentativa de compreender como as pessoas constroem, administram e perdem o controle sobre as imagens que circulam a seu respeito.
Esse deslocamento define a singularidade do livro. O universo pop oferece escala e tensão, enquanto a matéria humana permanece reconhecível: curiosidade, desejo, pertencimento, repertório e o desconforto diante de alguém que jamais se deixa reduzir a uma versão simples.
Quando a imagem pública escapa ao controle
Fernandes passou décadas trabalhando com publicidade e marketing, áreas em que a construção de percepção faz parte do ofício. No romance, essa experiência retorna sob forma de conflito. O autor observa que a gestão da imagem pública se tornou mais instável: algoritmos, comunidades de fãs e ciclos de exposição acelerados produzem uma sensação de controle que pode desaparecer em poucas horas.
O K-pop feminino concentra esse mecanismo com nitidez. A artista é simultaneamente pessoa, personagem, marca, ativo econômico e objeto de interpretação coletiva. Por isso, o autor o escolhe como metáfora de uma sociedade que fabrica reputações em escala industrial e, ao mesmo tempo, oferece cada vez menos domínio sobre o que será feito delas.
“A máquina de fabricar reputações existe em diversos níveis e em diversas áreas.”
Cacá Fernandes
Em A Garota de Seul, a celebridade amplia uma pergunta que pertence a qualquer vida contemporânea: quanto de nós continua sendo nosso depois que uma imagem começa a circular entre pessoas que jamais conheceremos?
Nova York, São Paulo e Seul como estados de consciência
As três cidades do romance funcionam como geografia externa e como linguagem emocional. Fernandes afirma que nunca pensa um lugar separado do personagem. O espaço vale pelo que representa para alguém em determinado momento — e essa escolha impede que a cidade seja apenas cenário decorativo.
Nova York concentra o encontro e o estranhamento. São Paulo carrega memória profissional, origem e desgaste. Seul representa a engrenagem cultural capaz de transformar disciplina, juventude e performance em produto global. Entre esses polos, o romance sugere uma cartografia contemporânea menos orientada por fronteiras nacionais e mais definida por repertórios compartilhados.
“Hoje acho que as diferenças não são mais entre cidades. São entre tribos.”
Cacá Fernandes
A formulação ajuda a entender por que os personagens atravessam continentes sem abandonar o mesmo território íntimo. Música, cinema, arquitetura, fotografia e hábitos cotidianos formam uma linguagem de reconhecimento que aproxima desconhecidos e, em certas situações, produz uma ilusão perigosa de intimidade.
Referências culturais como portas, nunca como senha
Restaurantes, fotógrafos, filmes, museus e músicas aparecem ao longo do romance sem explicações prolongadas. A intenção declarada do autor é preservar duas experiências de leitura. Quem identifica as referências percebe camadas adicionais; quem passa por elas sem pesquisar continua acompanhando a história.
Esse método evita transformar repertório em prova de pertencimento. As referências trabalham como atmosfera, indício de personalidade e convite à descoberta. Fernandes aproxima esse procedimento do cinema de Woody Allen, sobretudo da capacidade de deixar uma obra acessível enquanto abre caminhos para outros livros, artistas e épocas.
“São como um cheiro, um tempero.”
Cacá Fernandes, sobre as referências do romance
A curiosidade, portanto, ocupa uma função estrutural. Ela move o protagonista, orienta o leitor e também define a relação do próprio autor com o mundo. A obra acredita que um café, uma rua, uma fotografia ou uma música podem alterar a maneira como alguém percebe a própria vida.
A fotografia revela quem escolhe olhar
Entre as artes visuais, a fotografia recebe atenção particular. Fernandes explica que uma referência nunca é neutra. Citar Picasso, Van Gogh ou Monet produz um tipo de personagem; mencionar David LaChapelle ou Robert Mapplethorpe produz outro. O nome escolhido informa época, sensibilidade, desejo, risco e modo de olhar.
Essa lógica conversa diretamente com o núcleo do livro. A fotografia seleciona enquadramento, luz, distância e instante. A celebridade também vive submetida a enquadramentos. O publicitário, por sua vez, conhece o poder de selecionar aquilo que será visto. A narrativa se constrói no atrito entre esses olhares — o olhar que registra, o que projeta, o que consome e o que tenta preservar alguma zona privada.
O retorno à ficção e uma escrita menos apressada em julgar
Depois de publicar Invisíveis e Mulheres ainda jovem, Cacá Fernandes passou mais de duas décadas afastado da ficção. Ao comparar as fases, reconhece uma mudança de maturidade: antes, julgava seus personagens com rapidez; agora, procura permitir que a história revele suas contradições antes de fixar uma sentença.
Essa disposição favorece um romance em que desejo, obsessão, fama e vulnerabilidade permanecem em tensão. O livro evita resolver seus personagens em diagnósticos fáceis. Cada leitor pode construir uma interpretação diferente a partir da própria bagagem cultural — resultado que o autor considera uma das formas mais altas de complexidade literária.
O que permanece depois das referências
Filmes envelhecem, restaurantes fecham, cidades mudam e fenômenos musicais perdem centralidade. Fernandes espera que outra camada sobreviva: o estranhamento diante do novo, a disposição para atravessar repertórios desconhecidos e a abertura para uma história de amor que já nasce sob o sinal da impossibilidade.
É nessa camada que A Garota de Seul encontra sua identidade. O romance usa a escala do K-pop para observar um gesto muito antigo: aproximar-se de outra pessoa sem saber se o que vemos pertence a ela ou às imagens que projetamos. A curiosidade pode abrir o mundo; também pode atravessar fronteiras que deveriam permanecer intactas. O livro se instala justamente nesse limite.
Publicada pela K2 Editora e integrada ao catálogo parceiro da Ryoki Produções, a obra está disponível em edição impressa e digital. A entrevista completa com o autor pode ser lida no Escolha do Editor.